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19 de setembro de 2012

Amizade?

Honorável V. de Merindral,

Venho por meio desta lhe desejar uma boa viagem e que Lileath e Mathlann guiem seu caminho até nossa amada Ulthuan. Que sua jornada seja tranquila.
Também gostaria de reforçar o pedido que lhe fiz na ocasião de vossa partida, de manter-me informada quanto aos avanços dos elfos das travas que rondam nossa terra pura. Sejam elas boas ou ruins, informe-me.
Igualmente espero que possamos trocar correspondências com assuntos mais amenos, já que não nos conhecemos direito. Vejo o fim de nosso noivado forçado como uma forma de começarmos do zero e nos tornarmos amigos, pela nossa própria vontade e não por imposição. Sabes um pouco sobre minha pessoa, já ao passo que nada sei acerca de ti. Se essa amizade se tornar algo mais, gostaria que fosse por nossos próprios méritos, não acha?
Não tive a oportunidade de falar durante a nossa conversa, um tanto quanto tensa, que sempre o respeitei apesar de tudo, me preservando como elfa, mulher e diplomata. Nunca falei mal ou o destratei perante os outros, apenas me mantive em silêncio. Saiba que não tenho nada contra ti, apenas contra uma ideia imposta de nos privar de nossa liberdade de escolha. Respeito sim nossas tradições e sempre sonhei em casar-me, porem não dessa maneira. É só minha maneira de ver as coisas.
Penso que regressarei em breve para nossa terra, pois os dias se tornam cada vez mais difíceis, sinto que a loucura se aproximou um pouco de mim com as coisas terríveis que vi nos últimos dias, mas não te amolarei com isso.
Essa é para ser uma carta de alegria e de um recomeço e espero que sua mágoa passe logo, pois partiu meu coração ver-te partir daquela forma, tão consternado e desalento.
Alegre-se, pois seremos amigos e esse é só o primeiro passo.

Fortuna, de sua mais nova amiga,

                                                                                                                                                       Andrine.   



16 de setembro de 2012

Pesado grilhão chamado tradição

De certa forma foi um dia angustiante. Queria acreditar ser pilhéria de meus pais, mas infelizmente não era.

O petricor ainda estava forte, pois há pouco havia chovido. Meu vestido estava úmido por causa dos borrifos das gotas de chuva que batiam no chão adornado por tijolinhos de pedra azulada e eu rumava para meus aposentos com o intuito de secar-me e trocar de roupa, quando, ao passar pela sala de reunião de minha casa, ouço sem querer, uma conversa entre meu pai e minha mãe. Uma conversa que mudaria o rumo da minha vida, do meu destino.
Tratavam de meu casamento.
Fiquei em choque, como se meus pés sumissem, pois não podia acreditar que eles estavam fazendo aquilo, acabar com a minha liberdade.
Meu prometido? Um jovem visconde de nome Eldilor, que eu nem sabia que existia e isso não mudou nada nos anos seguintes. Mas quem era esse petiz?
Mesmo não sendo educado, invadi a sala e incrédula perguntei se o que acabara de ouvir era sério e a resposta não me agradou. Tentei argumentar, mas foi tudo em vão. A ideia já estava fixa e meus pais já haviam acertado todos os detalhes com os pais do rapaz. Era uma boa união para ambas as famílias, o negócio perfeito, pois as duas eram importantes na corte do Rei Fênix. Nos anos seguintes sempre tentava mudar a opinião deles e cheguei até mandar cartas para meu noivo na esperança dele desistir da ideia e nada. Estavam irredutíveis.
Fiquei doente, evitei participar de festejos e me isolei.
Havia perdido o viço da juventude e a alegria de viver, mas a esperança de me ver livre dos pesados grilhões de um compromisso surgiu na forma de uma viagem diplomática para o Império humano. Fui sem pensar duas vezes e sem olhar para trás, almejei com isso que todos esquecessem tal acordo.
Começaria uma nova vida entre os humanos.   

                                                                       ***

A viagem seguiu aprazível, adorava a brisa marinha tocando minha face e o barulho das ondas e pássaros marinhos que faziam sua revoada de migração ou de caça. Sentia-me a vontade em alto mar, pois minha família era conhecida por ser a melhor construtora de navios e barcos entre elfos e humanos.
Aportamos em Reikland e seguimos para a Floresta de Laurelorn, o lugar onde, por um erro de cálculo, eu nasci. Prestava atenção em tudo durante a viagem por terra, aquilo seria minha nova vida e daquilo dependeria meu sucesso. Passamos por várias cidades. Meu coração renasceu, sentia uma alegria queimar meu peito, respirei fundo deixando que o ar orvalhado da manhã invadisse meus pulmões. Tinha certeza que refaria minha vida ali.
A chegada à corte da lendária Rainha Sem nome foi o que faltava para meu renascimento. Já ia me habituando aos costumes do local com facilidade, seus habitantes eram amáveis, educados e lindos. Nobres elfos que seguiam suas vidas em harmonia. Agora só me faltava conhecer os humanos.
Não demorou para que saísse ao encontro deles. Uma missão me levou as terras de Salzenmund, onde logo me tornei amiga de conde Gausser, um humano digno. Meu coração palpitou ao conhecê-lo, não por amor, mas por respeito em conhecer alguém tão honrado e amável, tanto que chegava ao ponto de alguns nobres dizerem que ele era fraco ao lidar com os elfos, o que não era verdade. Ele era sim, educado. O conde era o único que compartilhava de meu destino infeliz. Minha missão diplomática se dava entre ele e os elfos de Laurelorn, numa demanda árdua por terras cultiváveis e comida. Tudo seguia bem até me envolver mais a fundo nos problemas dos reinos.
Mas isso já é outra história.




26 de abril de 2012

O Elmo

Gastei não sei quanto tempo tirando as manchas de sangue. Algumas foram difíceis de sair, mas eu insisti.

Meu irmão adorava esse elmo, apesar de ter pintado ele de um amarelo estúpido.

Se ele queria enfeitar o brinquedo, podia ter pedido ajuda pra mim. Mas quando vi a arte pronta não tinha mais o que salvar. E com aquela cara de bobo alegre dele na minha frente, o que eu podia fazer além de sorrir e dizer 'bom trabalho'? Meu outro irmão estava pronto pra fazer uma gozação, mas eu dei um tapa na nuca dele e sorri atravessado de um jeito que ele entendesse: deixa o garoto se divertir.

Dois crianções, bobos, esses meus irmãos. Mesmo assim, eu os amo como se fossem do meu sangue.

Sangue, o que vale isso? Preocupações como essa são só pra nobres, que precisam inventar o que fazer nas horas vagas e fingir ter alguma pureza que só eles tem. Pra gente é muito mais simples. Família é família, pronto.

Mas não foi sempre, sempre assim. Eu não queria eles.

Não no lugar da Wanda.

Eu não entendia porque minha irmã teve que ir embora e minha mãe não queria explicar. Isso me irritava muito, a ponto de me deixar de má vontade com ela frequentemente. Não que eu fosse enfrentá-la diretamente, mas... diabos, eu crescia e o silêncio continuava. Acabei tirando minhas próprias conclusões, o que foi uma perda de tempo, já que ela não negava nem confirmava nada.

Mas ela foi vencendo pelo cansaço e esse assunto ocupava cada vez menos a minha cabeça. Afinal eu tinha mais coisas pra fazer e, de qualquer forma...o mundo é grande. Com um pouco de sorte, a mão de Ranald...um dia, quem sabe?

Além disso, não demorou tanto pra que os meus novos irmãos quebrassem essa minha barreira inventada. Apesar de tudo eu precisava deles, da companhia deles... eu percebi depois de um tempo.

Bem, ao menos isso percebi.

Se tivesse prestado mais atenção, eu podia ter percebido também que não era culpa dela.

Sinto muito mãe, sinto muito mesmo.

Eu podia dizer que você escondeu bem, que fez tudo certo, mas a verdade é que eu fui burra, e essa minha burrice te machucou muito mais do que eu pensava que você tinha me machucado. E só agora vejo que eu não podia estar mais errada em pensar assim.

Eu não podia estar mais errada em várias coisas.

Eu pensava que tinha pouco, quase nada, mas só agora percebo que sempre fui muito rica. Deve ser algo parecido que as princesinhas sentem quando o castelo delas pega fogo com todo mundo dentro e não resta nada a não ser você e um elmo amarelo barato.

Todo mundo vai olhar esse elmo e ver ele limpo quase como se fosse novo, mas eu posso enxergar as manchas. E isso vai ser o suficiente, porque se fecho os olhos e começo a lembrar de tudo, uma voz sem palavras – é a sua, mamãe? - grita pra parar, como se me visse brincando na beira de um precipício que só eu não consigo enxergar.

Então não vou lembrar do que vi naquele dia, nem pensar nisso. Eu vou olhar para o elmo amarelo-estúpido com manchas invisíveis e minhas entranhas vão confirmar que isso é suficiente.

Suficiente pra não esquecer que meus irmãos bobos lutaram até o último suspiro. Não abandonaram a mamãe, não abandonaram ninguém, mesmo tendo pernas fortes pra correr. Se eu desistir agora, como vou poder encarar eles?

Assim eu posso seguir em frente, me equilibrando no fiapo de esperança que minha mãe me deu de presente com as últimas forças dela. O meu consolo é que, no fim, ela sabia.

Mesmo com toda minha burrice e má vontade, ela sabia que eu não deixei de amá-la nem por metade de um dia.

O Arco

Vestidos, armas, joias, armaduras e bugigangas de todos os tipos transbordavam pelas barracas espalhadas a perder de vista na larga rua do comércio. As lojas ao ar livre competiam ferozmente entre si pela supremacia de um campo de batalha que nada devia aos dos grandes exércitos.

As armas? Todo o barulho que os mercadores eram capazes de fazer para chamar a atenção sobre a qualidade e preço de seus produtos. Entre os combatentes desfilavam os juízes-alvos dessa guerra, portadores do prêmio máximo: as reluzentes moedas de ouro, prata e cobre protegidas em seus bolsos e mochilas.

Entretanto, os transeuntes em questão agiam antes como caçadores do que prêmios de disputa: negociavam, pechinchavam, observavam e selecionavam com parcimônia onde exatamente concederiam algumas de suas moedas em troca de peças de valor.

Claro, nesse jogo alguns se saíam melhor do que outros.

Afinal, um dia é da caça, outro do caçador.

- 10 peças de ouro por um simples chapéu de viagem??? Ele é feito do quê, seda élfica, por acaso?

Imersa no mar de verdadeiros e pretensos negociantes, uma mocinha rechonchuda e de olhos matreiros procurava onde gastar seu dinheiro e se desfazer do que já não tinha serventia. Insatisfeita com o que encontrara até ali, voltou sua atenção para o lado que vendia armas e armaduras.

Já que entrara de cabeça nessa vida de aventureira, tanto por escolha quanto por fatalidades, precisava ao menos garantir sua defesa pessoal. Olhou para o próprio arco e suspirou, decidindo-se.

- Nunca se sabe quando os anões não vão estar por perto, não é?

Lembrou-se da inocente Andrine, a nobre associada a eles, e do arco que ela possuía. A elfa exalava elegância por todos os poros, e isso incluía suas armas. Quando punha-se em prontidão eram como uma só entidade.

Já Hilde sentia-se deslocada com o arco que carregava, parecia que não funcionavam em harmonia. Claro, ela não era nenhuma elfa mestra em armas como Andrine ou Mithwen, mas não acreditava ser tão destrambelhada assim. A verdade é que não fazia ideia do que causava tal desconforto e não se sentia motivada a perguntar a alguém do grupo só para ouvir que era falta de treinamento. Tinha certeza que com um arco melhor as coisas poderiam ser diferentes.

- Um arco que combine comigo... - segurou a própria arma com as duas mãos, prestando atenção aos detalhes...inexistentes – É, acho que isso aqui não combina com nada.

Enquanto caminhava, pensava em como seria esse arco ideal se realmente existisse. Primeiro, não seria em nada parecido com o de Andrine, pois elas eram mulheres totalmente diferentes, embora simpatizasse sinceramente com a elfa de rubor fácil.

- Uma madeira forte e mais leve do que essa, com o espaço pra segurar fechando certinho na minha mão. Essa corda também parece que vai arrebentar a qualquer momento se eu puxar mais forte, podia ser mais firme...não passa muita confiança.

Riu para si mesma enquanto analisava o objeto, ciente de que precisaria mandar fazer uma peça única se quisesse um arco assim, e isso seria um pouco mais caro do que estava disposta a pagar no momento. Mas como sonhar é de graça, não havia problema em continuar.

- Ah, se vou pensar em tudo isso, ele também teria voltinhas para fora nas pontas e a madeira seria avermelhada. Pronto! - abriu um sorrido satisfeito com seu perfeito arco imaginário, o que seria o suficiente por enquanto.

Mas qual não foi sua surpresa ao virar o rosto na direção de uma das barracas e dar com o objeto de seus sonhos tranquilamente exposto entre outras armas da mesma família?

- Mas hein? - piscou, sem acreditar imediatamente na veracidade da visão. Atravessou a rua a passinhos rápidos e tiro-o do suporte sem cerimônia, comprovando com o próprio toque: não só a aparência, mas a leveza do corpo e firmeza das cordas também eram como imaginava. Impressionante!

- Interessada na arma, moça?

Apenas um detalhe era diferente. Reconheceu o 'X' gravado na parte de trás das pontas ornamentadas, e sorriu olhando para o céu. Era bom saber que não estava sozinha.

- Ah sim. Parece perfeita pra mim!

Como não se brinca com o Deus da Sorte, Hilde pagou o preço justo pelo arco impossível sem nem tentar barganhar. Mas não precisaria mais do antigo, por isso exibiu-o ao vendedor com as pompas de uma peça moralmente inestimável.

- O senhor já ouviu falar dos Heróis de Dorfmark?